fazia muito tempo, chegar em casa era o som de latido do billy.
não importava o que acontecera antes da chave dar sua última volta, do outro lado da porta, um olhar generoso reconhecia quem adentrava. a partir dali, alguns minutos de carinho e atenção focada faziam que o mundo tivesse ficado atrás do tapete da entrada. real companheiro de brincadeiras e carinho, indispensável fonte de renovação.
um símbolo de que há um guardião. há um castelo onde chegar. há uma família para ser guardada.
entretanto, um temperamento forte sempre foi característico. compreendemos como tratá-lo. as coisas ficam mais fáceis quando percebemos os limites de quem amamos.
nos últimos dez anos, ele consta em qualquer história da minha família.
sobre os pés, deitado na cama. sobre a escrivaninha, auxiliando no estudo. ouvidos atentos quando se precisava destrinchar palavras. patas ágeis, quando se queria brincar, fingir criança.
só que os anos passam mais rápidos quando se tem quatro patas para correr. se a idade e as doenças já nos pesam, fica mais complicado de tratar quando não se consegue verbalizar o que sente.
assim, os últimos anos foram difícies. com a inclusão de efeitos de doenças e tratamentos, de dores e drogas, o estresse tornou-se algo que afastava os que o amavam através do perigo. as mordidas, que serviam como auto-defesa, não doíam tanto na carne quanto no espírito.
muitas vezes, a agressão é um pedido de ajuda. mesmo que irracional.
depois de tentarmos tudo, entre remédios e cirurgia, uma última saída. a fluoxetina “é um medicamento antidepressivo da classe dos inibidores selectivos da recaptação da serotonina”. em verdade, tornou-se um retrato da morte em vida. a altivez (em excesso muitas vezes) deu lugar a um olhar perdido e a pouca resposta aos estímulos.
depois de nossa decisão de excluir tal medicamento, comecei a me preparar para algo que imaginava que iria acontecer. uma escolha que sabia que teria que fazer parte.
quando teu telefone toca às 7h da manhã, você precisa estar preparado.
a suspensão do medicamento, a meu ver, exponenciou uma dor que havia sido maquiada. billy teve 15 dias de muita dor. suas atitudes afastavam qualquer toque.
ele mal conseguia brincar, correr. não queria mais permanecer qualquer tempo, que não o necessário, na rua.
se é difícil ver alguém que amamos sofrer, é mais dolorido ver que tal dor ainda a fazia atacar a nós, que não lhe tinhamos qualquer outro sentimento que amor, carinho e gratidão.
escolhemos, desse modo, ficarmos com a dor que a escolha de não deixá-lo mais sofrer acarretaria.
quanto tempo mais vai demorar para que a rotina substitua a velha espera pelo som familiar?
o último lance de escadas tem sido o pior.
o castelo é o mesmo. seus habitantes, porém, não mais. temos, além disso, que guardarmos uns aos outros.
goo’bye, billy ol’buddy.
you’ll always be missed.
